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Princípios do Método Montessori

Maria Montessori nunca definiu um conjunto de princípios para a pedagogia que desenvolveu. Fez listas de características da sala, dos materiais, do professor, das crianças que encontravam seu próprio equilíbrio… Mas não fez uma lista de princípios de sua abordagem pedagógica. A lista que segue tem fins didáticos. A ideia não é reduzir o método Montessori a esses princípios, mas organizar as ideias de Montessori para tornar mais claras as suas descobertas e sua perspectiva educacional. Essa lista não foi criada por mim, mas por Edimara de Lima. Eu a utilizo com poucas modificações até hoje, porque me parece a organização mais abrangente e didática das ideias de Montessori, mas você encontrará outras listas de princípios na internet e em livros, e porque Montessori não estabeleceu uma organização deste tipo para as próprias ideias, listas diferentes não são, necessariamente, mais e menos certas, mas explicações diferentes para o mesmo conteúdo.

 

Autoeducação

Montessori, a partir da observação do comportamento das crianças em liberdade, chegou à ideia radical de que as crianças são capazes de aprender sozinhas [15, 16]. Todas as crianças aprendem algumas coisas sozinhas: andar, falar, comer, pegar, reconhecer voz e aparência, receber e fazer carinho… Mas em muitos casos, nós não percebemos isso. Em Montessori, nós confiamos na criança. Sabemos que se ela puder contar com o contexto adequado, pode desenvolver quase tudo de forma independente e livre.

Para aprender sozinha, a criança precisa ter a oportunidade de (1) ver outras pessoas, adultos ou crianças, fazendo as coisas; (2) ter a oportunidade de experimentar, tentar, testar, sem ajuda e sem ser interrompida; (3) ter a chance de perceber os próprios erros e os corrigir espontaneamente; (4) superar pequenas dificuldades, uma de cada vez, em um ritmo particular e diferente para cada aprendizado [17].

Porque a Autoeducação acontece assim, e porque esta é a melhor maneira de aprender, o método Montessori inclui materiais específicos, que são feitos para (1) serem manipulados pela criança, (2) trabalharem um novo desafio de cada vez e (3) darem à criança a chance de perceber seus próprios erros [17]. Com liberdade para escolher em que trabalhar a cada momento, e liberdade para repetir quantas vezes quiser cada exercício, a criança se autoeduca constantemente.

Crianças com materiais montessorianos em escolas da Tanzânia e Quênia.
 

Educação Cósmica

As crianças nascem interessadas por tudo ao seu redor, e há muitas formas de manter esse interesse aceso por toda a infância. Uma das mais belas é perceber que todas as coisas estão conectadas e dependem umas das outras para existir [27]. Ter es sa visão do mundo permite à criança desenvolver um senso de gratidão e união para com tudo o que há no mundo e perceber a ordem que existe na natureza e no universo.

Para garantir que isso ocorra, e que o encanto das crianças pelo conhecimento e pelo mundo se mantenha vivo, a educação das crianças de 6 a 12 anos é baseada em perguntas, histórias e pesquisas que seguem a curiosidade da criança [7]. Mesmo respeitando o currículo oficial, é possível permitir a expansão da curiosidade e dos interesses das crianças, desde muito cedo, e alimentar a percepção de que tudo pode ser descoberto, compreendido, e de que todas as coisas são interessantes, se olharmos para elas do ângulo certo.

A Educação Cósmica busca oferecer à criança a Visão Cósmica do mundo [14]. Cosmos, o oposto de caos, é a ordem do universo. Um importante divulgador de ciências dizia que “se você quiser fazer uma torta de maçã do zero, primeiro precisa criar o universo”[28]. Dar à torta de maçã um sabor de estrelas é a função da Educação Cósmica.

Educação como Ciência

A maior parte da educação das crianças é baseada em crenças e experiências individuais. Educo meus filhos e meus alunos como meus pais e meus professores educaram a mim. Faço as coisas como faço porque acho que isso funciona. Acho que a família e a escola devem ser organizar de um jeito, e não de outro, porque acredito em algumas coisas, e não em outras.

Particularmente, a estrutura de escola que temos hoje deriva de um conjunto de crenças e modos de agir do meio do século XVIII, a época da Revolução Industrial: filas de cadeiras, o mesmo conteúdo, ao mesmo tempo, para todo mundo, imobilidade e submissão dos alunos, e prêmios e castigos como forma de disciplina.

Quando Montessori começou a trabalhar com as crianças de São Lourenço, já sabia que essa abordagem não era a melhor. Mas em lugar de estabelecer uma nova pedagogia, de acordo com suas próprias crenças, ela escolheu deixar um grupo de crianças em liberdade, em um ambiente semiestruturado, e observar seu comportamento, para depois pensar uma educação que não partisse das crenças do adulto, mas do desenvolvimento natural das crianças [17].

É assim até hoje: nas casas e escolas montessorianas, antes de decidirmos fazer qualquer coisa importante (desde apresentar um material novo, até interrompermos o que parece ser uma má ação da criança), nós paramos e observamos, para tentar compreender quais as necessidades reais da criança e qual a melhor abordagem a adotar, com cada criança, a cada momento [15].

É isso que faz do método Montessori uma abordagem pedagógica que dá às crianças a chance de atingirem um excelente desempenho acadêmico [18]e, ao mesmo tempo, usufruírem de um grande prazer enquanto estão na escola [19], inclusive e especialmente durante tarefas acadêmicas desafiadoras.

Ambiente Preparado

Para o método Montessori, liberdade é algo muito importante. A criança deve ter uma liberdade que é biológica [20], porque deixa a vida se desenvolver. Assim como uma árvore é livre quando está em uma terra fértil, úmida e profunda, a criança também precisa de um ambiente preparado, seguro, e com nutrientes (físicos, emocionais, mentais e sociais) para que possa ser livre para viver.

Existem algumas condições para que o ambiente dê liberdade à criança. A primeira é que tudo o que é importante seja acessível. Primeiro, o mais básico: a criança precisa ter uma forma de beber água, comer, usar o banheiro e dormir, sem precisar de autorização ou de ajuda do adulto. Depois, o resto: a criança precisa viver sem ajuda e autorização do adulto. Então o mundo deve ser preparado para ela. Ou a gente abaixa as coisas, como se faz na escola montessoriana, onde tudo fica à altura dos pequenos, ou a gente dá um banquinho para a criança, de forma que ela possa acessar as coisas que não podem ser adaptadas, como a pia de casa, por exemplo.

O ambiente tem outras características: não deve ser hiperestimulante. O mundo todo é estimulante para a criança, então os ambientes que a gente pode controlar devem ser tranquilos, pintados de cores claras e neutras, e a mobília da criança deve ser assim também. Pelo mesmo motivo, não é necessário nem positivo que a criança tenha brinquedos demais. Ela pode ter poucos e bons, e ter acesso a todo o resto da casa, o que diminui muito a necessidade de ter pilhas e mais pilhas de brinquedos ruins. Finalmente, tudo no ambiente deve servir para a atividade das crianças: não só as folhas de papel preparadas pelo professor, mas todos os materiais, toda a mobília, todos os objetos de decoração. Tudo pode ser cuidado, lustrado, polido, lavado, limpo, reparado, organizado e protegido pela criança [17]. Assim, existindo no mundo, em liberdade, as crianças podem finalmente viver sua vida completa, e respirar a liberdade.

Adulto Preparado

Todos os outros princípios só funcionam quando o adulto que interage com a criança se esforça para se transformar interiormente. Montessori dizia que precisávamos abandonar o orgulho de sermos adultos, e a ira contra a criança que não comporta das formas que são mais cômodas para nós [23]. É necessário que o adulto passe pela constante humilhação de respeitar a criança em todas as suas necessidades – e é claro que aos poucos deixamos de nos sentir humilhados, mas precisamos atravessar o pântano do respeito pela criança para descobrirmos a luz do outro lado. Desde o início, precisamos contar com “uma forma de fé, de que a criança irá se revelar por meio do trabalho”[21].

Se por um lado, a preparação do adulto é profunda, psicológica, quase espiritual, por outro ela também é exigente na técnica. O adulto preparado é um observador que confia na criança e busca nos atos dela as indicações de suas necessidades [15]. Com a observação realizada, pela configuração do ambiente e pelas interações, esse mesmo adulto tenta oferecer os meios para que a criança satisfaça aquilo que é importante e supere aquilo que ainda é um desafio ou um obstáculo.

Esse adulto nunca ajuda mais do que o mínimo necessário, abstém-se de colaborar sempre que a criança acredita que pode agir sozinha e garante, a todo momento, que sua presença possa ser sentida caso seja necessária [22]. A alegria deste adulto é dupla: ser cada vez menos necessário, e ter a chance de observar a vida se desenvolvendo.

Criança Equilibrada

Quando as crianças são bem pequenas, seu pensamento e suas ações andam juntos. Mente e corpo, ou, nas palavras de Montessori [5], vontade e ação. Quando um bebê chacoalha um chocalho, não faz isso pensando no passeio que vai dar à tarde, ele está inteiro com o chocalho, mente e corpo, vontade e ação. Mas quando as crianças crescem e tentam fazer coisas mais complexas do que usar um chocalho, nós temos medo. Impedimos que elas subam escadas, ajudamos quando vão abrir uma gaveta, interrompemos quando elas passam tempo demais lavando as mãos. Isso, aos poucos, produz uma separação entre a vontade, que fica na escada, querendo subir, e a ação, que fica na frente da televisão, assistindo um desenho, porque foi lá que nós achamos seguro colocar a criança.

Essa separação da vontade e da ação produz instabilidades de todo tipo no desenvolvimento da criança. Ela pode ficar com os movimentos desordenados, irritável, agitada, ou pelo contrário, letárgica, desinteressada de tudo, submissa. As duas coisas são desvios em relação ao desenvolvimento que ocorreria se a criança tivesse a liberdade biológica para se desenvolver plenamente [23]. Mas há caminhos para retornar a um curso mais equilibrado de desenvolvimento, e a criança faz isso quando se empenha, com concentração e alegria, em atividades interessantes e desafiadoras que exijam movimento do corpo e aperfeiçoamento inteligente das ações realizadas.

Em Montessori, chamamos esse tipo de atividade de “trabalho” [23]. A primeira função do trabalho é ajudar a criança a alcançar a concentração. Quando a mente e o corpo (vontade e ação) retornam a um só centro, todos os desequilíbrios diminuem, e muitos desaparecem, conduzindo a criança a um estado mental que envolve concentração e alegria, e conduz à independência, iniciativa, autodisciplina, generosidade, prazer pelo esforço e confiança em si mesma [23, 29]. Há pelo menos dois ou três nomes para este processo na obra de Maria Montessori, como normalização e conversão [2]. 

Referências

[1] Lillard, L. Montessori: The Science Behind the Genius. Oxford Univ. Press, 2018.

[2] Trabalzini, P. Maria Montessori: Through the Seasons of the Method, The NAMTA Journal, Vol. 36, No. 2, Spring 2011.

[3] Kramer, R. Maria Montessori: A Biography. De Capo Press, 1988.

[4] Montessori, M. Formação do Homem. Kirion, 2019

[5] Montessori, M. Mente Absorvente. Portugália/Nórdica.

[6] Shields, J. “Help Me to Help Myself”: Independence and the Montessori Philosophy. Montessori Guide, AMI/USA, 2014. Disponível em: https://montessoriguide.org/help-me-to-help-myself

[7] Lillard, P. Montessori Today: A Comprehensive Approach to Education from Birth to Adulthood. Schocken Books Inc, 1996

[8] Montessori, M. Para Educar o Potencial Humano. Papirus, 2014.

[9] Goertz, D. Children Who Are Not Yet Peaceful: Preventing Exclusion in the Early Elementary Classroom. Frog in Well, 2001.

[10] Kahn, David. Montessori Erdkinder: The Social Evolution of the Little Community. 25th International Montessori Congress Papers, 2005.

[11] Donahoe, Marta. Where is Everybody: Valorization in a World that Could Be. Montessori Life, volume 20, number 3, 2008.

[12] Brown, B. Braving the Wilderness: The Quest for True Belonging and the Courage to Stand Alone. Random House, 2017.

[13] Montessori, M. Erdkinder and the Functions of the University. Publicado como apêndice do livro MONTESSORI, M. Da infância à adolescência. Rio de Janeiro: ZTG, 2005.

[14] Grazzini, C. A Visão cósmica: O plano cósmico, e a Educação Cósmica de Maria Montessori. The NAMTA Journal, Vol. 38, No. 1, Winter 2013. Disponível em português em: http://omb.org.br/wp-content/uploads/2016/04/A-visa–o-co–smica-o-plano-co–smico-e-a-educac–a–om-co–smica-segundo-Montessori.pdf

[15] Montessori, M. Spontaneous Activity in Education – Advanced Montessori Method, V.1. Frederick A. Stokes Co., 1917.

[16] Montessori, M. Creative Development in the Child. Kalakshetra, 1994.

[17] Montessori, M. A Descoberta da Criança: Pedagogia Científica. Kírion, 2017.

[18] Lillard, A. Evaluating Montessori Education. Science 29 Sep 2006, Vol. 313, Issue 5795, pp. 1893-1894 DOI: 10.1126/science.1132362

[19] Lillard, A. Montessori Preschool Elevates and Equalizes Child Outcomes: A Longitudinal Study. Front. Psychol., 30 October 2017 | https://doi.org/10.3389/fpsyg.2017.01783

[20] Montessori, M. The 1913 Rome Lectures. Montessori-Pierson Publishing Company, 2013.

[21] Montessori, M. Educação para um Novo Mundo. Comenius, 2014.

[22] Montessori, M. A Decalogue. AMI Journal 1992/1.

[23] Montessori, M. O Segredo da Infância. Kírion, 2019.

[24] MPPI. Montessori Essentials. Montessori Public Policy Initiative, 2015. Disponível aqui: https://www.montessoripublicpolicy.org/resources

[25] Donahoe, M. Liberty and Hope for the Adolescent: Valorization of the Personality. Clark Montessori Newsletter, Spring 2009. Disponível em: https://cmstep.com/articles/

[26] Donahoe, M. Widening the Circle. Montessori Life, volume 18, number 2, 2006.

[27] Haines, A. Strategies to Support Concentration. The NAMTA Journal, Vol. 42, No. 2, Spring 2017.

[28] Sagan, C. Cosmos – Episode 9 – The Lives of The Stars. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6PHO2DZN30k

[29] Standing, E. M.. Maria Montessori: Her Life and Work. Signet, 1962.

Fonte: Gabriel Salomão - Lar Montessori

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